sábado, julho 12

Moby Dick - HERMAN MELVILLE (Editora COSACNAIFY, 656 pág.)

O Moedoteca publica hoje a continuação (e encerramento) da resenha de Moby Dick, iniciada há duas semanas e que pode ser lida ou relida AQUI.

No capítulo de número 135, de título A Caçada - Terceiro Dia, o último antes de um breve Epílogo que encerra o livro, Melville constrói e Ishmael descreve uma cena épica, verdadeiramente dantesca (no que esse termo possui de designação para fatos e feitos grandiosos), na qual o Pequod, navio que atravessa oceanos e centenas de páginas numa insensata busca por Moby Dick, finalmente naufraga e conduz quase toda a sua tripulação à morte - morte que, em diversos trechos da narrativa, já se insinua em acontecimentos e previsões de mau agouro.

Creio que partir de tal desfecho seja o caminho indicado para a análise de uma obra tão inexplicável. Isso que D.H. Lawrence, no seu estranhíssimo ensaio dedicado ao romance de Melville, classifica como "um épico do mar tal como nenhum outro homem realizou" e "maior romance marítimo já escrito", é uma sucessão inexprimível de capítulos questionáveis, personagens inverossímeis, diálogos absolutamente impenetráveis e irreais e, sobretudo, de pretensiosas investigações metafísicas e psicológicas sobre o insano capitão Ahab.

A mania que o guia nessa busca tresloucada, mas fria, de vingança contra um animal que lhe mutilou, é algo de uma grandeza que a nossa concepção de realidade pouco percebe. Mas, ora, e desde quando a loucura nos deve parece sensata? Talvez seja perfeitamente cabível que um capitão mutilado, um homem do mar taciturno e vingativo, empreenda uma caçada tão abominável - e que ainda assim, em certos momentos, considere a condição miserável dos seus comandados. Eles, que jamais foram atacados pela Baleia Branca, decidem caminhar para o confronto com um ímpeto guerreiro que pouco ou nada tem de reflexivo - apenas Starbuck, seu primeiro imediato, tenta dissuadi-lo do intento. E, por isso, por seu equilíbrio mental, é classificado por D.H. Lawrence como "medroso". Apelando para os sentimentos paternais de Ahab, Starbuck consegue apenas que o capitão insista na sua permanência no navio no momento em que, singrando o Pacífico, os botes partem para a luta contra Moby Dick. Nem assim, obviamente, se salva. Quando

"(...) círculos concêntricos envolveram o bote solitário e toda a sua tripulação e cada remo flutuante e cada haste de lança e, levando a girar as coisas vivas e inanimadas em volta de um único vórtice, fizeram desaparecer até a menor lasca do Pequod."

e

"(...) então tudo desabou e o grande sudário do mar voltou a rolar como rolava há cinco mil anos."

só Ishmael, que de longe observava toda a cena, consegue livrar-se da morte. Ironicamente, encontra salvação num caixão (preparado para o selvagem Queequeg que contraíra uma febre fortíssima e sobrevivera sem explicações para morrer afogado) posteriormente adaptado como bóia.

Um desfecho com tantas mortes não surpreende. Moby Dick é, todo ele, tomado por sinais e indicações de morte: ainda antes de embarcar, Ishmael e Queequeg são incomodados por previsões sombrias feitas por uma figura profética chamada Elijah. Já em alto mar, outros signos aparecem - seja encontrando navios devastados pela febre, tripulações rebeladas sob o comando de falsos profetas ou escutando previsões macabras feitas pelos pagãos que povoam o navio, Ahab está sempre acompanhado da certeza de que não mais aportará. Certeza que Ishmael compartilha:

"A minha impressão mais forte era de que, por mais rápida e impetuosa que fosse aquela coisa na qual eu estava, ela não estava se dirigindo a um porto à frente, mas que fugia de todos os portos que deixava pra trás".

Esse tom faz com que Melville escreva um romance repleto de misticismo. O "chato da Nova Inglaterra" (como o define D.H.) não constrói personagens religiosamente coesos e entediantes. O fato de o próprio navio contar com a presença fundamental de índios, negros e ilhéus do Pacífico explica muito a respeito da estranha espécie de sincretismo que permeia alguns capítulos. O ato de Ishmael, bom cristão e bom americano, que se presta a adorar um "pedaço de madeira", objeto de culto do seu companheiro selvagem Queequeg, é o ponto inicial dessas confusões místicas e religiosas. Antes, a justificativa do narrador:

"E qual é o desejo de Deus? - fazer ao semelhante o que desejo que façam a mim - esse é o desejo de Deus. Ora, Queequeg é meu semelhante. E o que eu gostaria que Queequeg fizesse por mim? Ora, unir-se a mim em meu rito Presbiteriano de adoração. Portanto, eu devo unir-me a ele, logo, devo tornar-me um idólatra."

E, agora, a observação de D.H. a respeito desta cena:

"(...) é, irremediavelmente, teologia barata. Mas é a verdadeira lógica americana."

E é, a meu ver, também a poderosa e inquieta ironia de Melville e Ishmael - algo que, bem posto, contrasta fortemente com o tom grandiloqüente do romance, já referido no texto anterior. O homem "chato" e "sentencioso" que foi Melville, então, só se tornará um autor chato e sentencioso caso seja lido de forma obtusa.



E lê-lo de forma obtusa é uma tentação recorrente. Note-se, por exemplo, a dúbia relação entre Ishmael e Queequeg. As cenas iniciais entre os dois insinuam o homossexualismo de forma velada ou óbvia? Semelhante dúvida só pode ser suscitada por uma prosa clara e, ainda assim, enigmática: o vocabulário desses trechos é amável, digno das mais íntimas e constrangedoras confissões amorosas, mas não se descreve nenhum ato propriamente sexual. O afeto entre os dois permanece pouco esclarecido - e, ainda que muitos críticos e analistas dignos de respeito não tenham a menor dúvida quanto à homossexualidade do narrador, é inegável que a opção feita por Melville, de mera sugestão, impede-nos de considerá-lo um pioneiro neste assunto, àquela altura polêmico. Tais dúvidas, por sinal, só demonstram que sua mente é tão tortuosa quanto a escrita, a estrutura e o significado de Moby Dick

E, afinal, o que significa a imensa, assassina e invencível Baleia Branca? Ela, um mamífero ancião, alvo e cravejado de arpões que não conseguiram lhe exterminar, atravessa o oceano há décadas e mata os bravos ou dementes caçadores (cada vez mais raros) que lhe perseguem. Ao que parece, a sua suposta astúcia e inteligência, contudo, é um traço que a monomania de Ahab, e só ela, lhe dá: a certa altura da perseguição, Starbuck observa que a mutiladora nada como se ignorasse o seu caçador - na sua irracionalidade, ataca apenas porque é atacada, sem intenções assassinas.

Tal observação, porém, também não é taxativa. Afinal, quando se percebe acossada, Moby Dick compreende e visualiza o Pequod - e não os botes e os homens armados sobre eles - como o verdadeiro centro do ataque; e, dessa forma, investe ferozmente contra navio, levando-o a pique. Há, então, uma inexplicável sagacidade no animal. Essa ambigüidade possível no entendimento da baleia é outra genial opção de Melville. Como afirma D.H. sobre o significado de Moby Dick, "duvido que mesmo Melville soubesse com precisão. Isso é o melhor de tudo". Típico dos romances que legam discussões infinitas e - tantas vezes - insuportáveis (equivalente ao brasileiríssimo debate sobre a tradição ou a fidelidade de Capitu).

Ainda que dê figurino, palco e cenário para especuladores descontrolados, esse procedimento literário, quase sempre, ampara grandes obras - todas elas múltiplas, infinitas e, por isso mesmo, experiências pessoais inigualáveis. Não consigo, por exemplo, superar a visão de Moby Dick, em sua saga tão revisitada, nadando indiferente em alto mar, velha e desinteressada por tudo o que não for alimento, oxigênio e seu inútil perambular. Não busca homens para assassinar, não persegue navios mercantes e nem os afunda por divertimento. Estar cravejada por arpões, nadar com corpos de pescadores mortos há dias, já deteriorados, presos sobre o seu dorso - nada disso lhe tem significado ou importância. Toda a sua simbologia parte do homem. Toda a sua fúria destrutiva parte do homem. Todo o seu significado, em tudo o que possui de atroz e belo e incontornável, parte do homem - é ele quem vive e morre para que Baleia Branca persista sendo mais do que um Leviatã que nada inutilmente para o seu próprio fim.

NOTA:

Um comentário:

Renver disse...

Excelente resenha, mas excelente mesmo!!!

Eu terminei de ler o livro esses dias e realmente é tão complexo e enigmático quanto sua resenha descreveu

Só achei um pouco exagero insinuar um comportamento homo afetivo do Ismael...

To editando minha própria resenha sobre esse livro mas no final vou deixar o link da sua resenha (essa merece ser vista e apreciada).

E outra coisa POSSO ESTAR ENGANADO, mas as observações de D.H. Lawrence elas passam uma leve impressão de depreciação sobre Moby Dick (a mesma impressão que eu tenho quando o Rubens Edward Filho tece suas críticas sobre algum blockbuster).